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Que este amor não me cegue nem me siga

Que este amor não me cegue nem me siga E de mim mesma nunca se aperceba. Que me exclua do estar sendo perseguida E do tormento De só por ele me saber estar sendo. Que o olhar não se perca nas tulipas Pois formas tão perfeitas de beleza Vêm do fulgor das trevas. E o meu senhor habita o rutilante escuro De um suposto de heras em alto muro. Que este amor só me faça descontente E farta de fatigas. E de fragilidades tantas Eu me faça pequena. E diminuta e tenra Como só sóem ser aranhas e formigas. Que este amor só me veja de partida.                                                       Hilda Hilst  Ver: Azougue 10 anos org. Sérgio Cohn. Rio de Janeiro: Azougue Editorial 2004

De tanto te pensar, Sem Nome, me veio a ilusão

De tanto te pensar, Sem Nome, me veio a ilusão. A mesma ilusão Da égua que sorve a água pensando sorver a lua. De te pensar me deito nas aguadas E acredito luzir e estar atada A fulgor do costado de um negro cavalo de cem luas. De te sonhar, Sem Nome, tenho nada. Mas acredito em mim o ouro e o mundo. De te amar, possuída de ossos e de abismos Acredito ter carne e vadiar Ao redor de teus cimos. De nunca te tocar Tocando os outros Acredito ter mãos, acredito ter boca Quando só tenho prata e focinho. Do muito desejar altura e eternidade Me vem a fantasia de que Existo e Sou. Quando sou nada: égua fantasmagórica Sorvendo a lua n'água.                                   Hilda Hilst Ver: Azougue 10 anos org. Sérgio Cohn. Rio de Janeiro: Azougue Editorial 2004.
  Gregor Samsa e a sua metamorfose   E m “A metamorfose”, livro narrado em terceira pessoa, Franz Kafka nos conta a história de um homem, Gregor Samsa, que se torna um inseto. A estranheza do enredo vem à tona logo na primeira frase da novela: “Quando Gregor Samsa, numa certa manhã despertou de seus sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama transformado em um inseto monstruoso”. (p. 1, 2007, tradução nossa). A partir de sua metamorfose, Samsa, enquanto inseto estranho, não consegue mais realizar suas atividades diárias, como por exemplo, o trabalho de caixeiro-viajante.   Assim, o narrador descreve minunciosamente as dificuldades do protagonista ao se levantar da cama, ao perceber-se atrasado para o trabalho. Além disso, a obra cria certa expectativa na aparição do inseto à família e ao procurador da empresa, que vai até a casa de Samsa para saber a respeito de seu atraso na estação ferroviária.   O pai (figura importante em toda obra de Kafka), a mãe ...

É isso!

O sol me encarava e eu sabia que ele era apenas o fogo que queimava meus lábios pouco a pouco e me fazia sentir que eu não poderia ser mais nada do que isso. Hipocrisia seria dizer que isso é muito, pois é tão pouco. Talvez, não haja arte alguma na vida ou arte é a vida em  inconstante encenação, mas nada disso faz diferença, porque sempre estremeço diante dela. O amor, eu nunca entendi - a palavra, presa em seu labirinto de significações, como o sol não tateável que nunca se apreende. Mas a impossível luz se faz necessária, como o frescor do dia a iluminar a solidão de um bem-te-vi num coreto vazio.

Altas horas

Há tantas noites, pairam meus pensamentos sobre as montanhas ogivais deste lugar e se adentram espectralmente através das três faces da cidade: a adormecida, a acesa e a fantasmagórica. Há tantas noites, eles seguem a imaginar os corpos esticados enredados na trama dos lençóis. Há tantas noites, eles abandonam o meu corpo tão desfeito e fluem em direção a cifra dos segredos... Além deles... Quantos seres adormecem solitários engolfados   no próprio desejo de encerramento? Nas covas da imensa escuridão, quantos corpos se enterram ou quantas mulheres se debatem à luz de uma nova vida? Em quantas ruas ou becos se embalam seres transfigurados em restos de lixo? Seres que seguem como  fantasmas entregues a eterna convalescença. Por um lance de minutos, eles pairam novamente... e eu não quero ir mais contra – que fiquem então ao meu lado, que me façam ver o espelhamento do dia –   meus pensamentos. E eles retornam através da descontinuidade e de um...

Inválida busca

Caminho em busca de algo sempre, em busca de uma direção difusa e ao mesmo tempo pontual, eu procuro um sentido oposto da rigidez cerimonial. Não procuro mais plenitude etérea, apenas procuro incessantemente a hospede expectativa, eis um olhar de ser para ser seminal. Eu busco e busco, mas sempre esse vazio... e regresso e sigo para saber de minha solidão. Tudo isso para acabar serpenteada pelo fio de meu amargo sexo final.

Ich lebe mein Leben in wachsenden Ringen/ Eu vivo minha vida em anéis crescentes

Eu vivo minha vida em anéis crescentes, que se anelam sobre as coisas. Talvez, os últimos não completarei, mas quero tentar. Eu circulo em direção à Deus, à torre de outrora, e circulo por mil longos anos; e eu ainda não sei: se sou um falcão, uma tempestade, ou um grande canto. Trecho: Tradução instrumental - Pollyanna Nunes Ramalho Ich lebe mein Leben in wachsenden Ringen die sich über die Dinge ziehn. Ich werde den letzten vielleicht nicht vollbringen, aber versuchen will ich ihn. Ich kreise um Gott, um den uralten Turm und ich kreise jahrtausendelang; und ich wei β noch nicht: bin ich ein Falke, ein Sturm oder ein gro βer Gesang. Reiner Maria Rilke

Lembranças

  Sobre a mesa da casa, inúmeras fotografias, e no silêncio do recinto despido, tantas memórias vazias, frias e congeladas, soltas ao vento... A velha máquina de escrever, os vestidos finos puídos, os espelhos partidos, lapso de palavras, manchas e urticárias.   As flores mergulhadas em lágrimas, as tílias que não curam do abismo inapreensível do tempo. A contingência do ser e o leve sorriso destruindo-se num flux de velocidade. Um começo & um fim? A existência refletida no mar azul de um doce canto ou  de um simples abismo de recordações.    

O ônibus, a mulher e o dinheiro

          A Leonardo Magalhães, quem imaginei para escrever este conto.  Um dia desses pela manhã, um dia como qualquer outro, estava dentro do ônibus em pé. Olhei em direção a rua e vi tantos carros e então percebi que simplesmente não conseguiria chegar no horário. O ônibus quase parado, fiquei muito nervoso.   Eu estava no fundo do ônibus e após 15 min. uma moça disse, com um sorriso no rosto: __ Senta aí, vou descer! Como chegou ao destino, o alívio dela era visível. Com uma sutil piscada agradeci  e prontamente me sentei.   As minhas pernas também agradeceram.   E em poucos minutos não sentia mais o peso do corpo, estava aliviado. No entanto, sem pensar mais nas dores que sentia nas pernas e no meu atraso, que certamente seria excessivo, pois se perde um ônibus por 2 minutos, perde-se o metrô, chega-se 1 hora em atraso. Comecei a observar os carros que passavam em torno e paralelamente ao ônibus. ...

Nova cara do mundo

O cometa de Halley vai passar Toda a cidade acorda pra ver o cometa Ele é enorme e fabuloso destrói idades pensamentos de homem. O mundo muda a cara quando ele passa e meninas desmaiam no fundo do sertão. O cometa passa e arrasta um pouco da minha alma. Fiquei triste, triste, jururu! Em vão minha tia Virgínia Amália Monteiro de Barros repete no piano com tanto sentimento a valsa Transiberiana, meu xodó naquele tempo. Qual valsa, qual nada! O cometa me traz o anúncio de outros mundos e de noite eu não durmo atrapalhado com o mistério das coisas visíveis. No rabo imenso do cometa passa a luz, passa a poesia, todo o mundo passa! Murilo Mendes
Aforismos Murilo Mendes O difícil não é encontrar a verdade: é organizá-la. Como é simples o mistério da Santíssima Trindade: um só Deus em três pessoas. Que complicação seria se houvesse três deuses! Jesus Cristo não esperou a maturidade para liquidar os sábios e doutores: fê-lo aos 12 anos. O anjo da guarda é proporcional. Jesus Cristo é tão utopista, que coloca o Paraíso no outro mundo; Karl Marx era tão realista, que colocou neste. É difícil ser cristão sem ser antes pagão, e israelita. O sonho é o pensamento em férias.

Jardim Secreto

Olhei através da janela é vi um jardim. Percebi que ele fora feito só para mim. Todos os dias, desde então, após meu café caminhava até lá. Mas, era tão pouco me esconder por apenas algumas horas, que às vezes eu até me perdia nele. Tantas vezes desperta no alvorecer, eu me esquecia de ser. Pode ser que eu apenas me tornava um outro ser integrado, natural. Minhas mãos criavam flores azuis, meus pés uma expansiva relva, todo meu corpo transportado de tempos em tempos. Percebo a existência de muitos jardins como esse e meu único medo é não saber mais viver além dali.

O lobo

Diante de mim, olho e não vejo nada. Tacitamente atravesso o chão forrado de pedregulhos e sinto o aroma gélido da terra. Em noites, canto músicas contínuas... e as luzes me alucinam. Uma pequena presença e meus olhos tornam-se rubros e oblíquos, meus lábios obtusos, minha felpa crispada e meu corpo esquivo e ofensivo. Quando um corpo se coloca diante de mim e me encara, eu o devoro. Mas, diante de uma distração, emudeço.                                                   *Pollyanna Nunes Ramalho 22/12/2014

A máquina do mundo

E como eu palmilhasse vagamente uma estrada de Minas, pedregosa e no fecho da tarde um sino rouco se misturasse ao som de meus sapatos que era pausado e seco; e aves pairassem no céu de chumbo, e suas formas pretas lentamente se fossem diluindo na escuridão maior, vinda dos montes e de meu próprio ser desenganado, a máquina do mundo se entreabriu para quem de a romper já se esquivava e só de o ter pensado se carpia. Abriu-se majestosa e circunspecta, sem emitir um som que fosse impuro nem um clarão maior que o tolerável pelas pupilas gastas na inspeção contínua e dolorosa do deserto e pela mente exausta de mentar toda uma realidade que transcende a própria imagem sua debuxada no rosto do mistério, nos abismos. Abriu-se em calma pura, e convidando quantos sentidos e intuições restavam a quem de os ter usado os já perdera e nem desejaria recobrá-los, se em vão e para sempre repetimos os mesmos sem roteiro tristes périplos, convidando-os a todos, em co...

Tempo e Mundo em Confissões de Minas e a Rosa do Povo

Em 1943, nas palavras de Drummond “o mundo estava submetido a um processo de transformação pelo fogo” (2011: 13) e, nesse processo, como o autor poderia deixar de tratar dos acontecimentos de sua época? Acontecimentos que até hoje deixam cicatrizes – ao que parece – insuperáveis.  Sua consciência, seu modo de enxergar a literatura, certamente, o impediria de fazer o caminho inverso, de se colocar simplesmente, em uma torre de marfim . Em muitos poemas de “A Rosa do Povo”, publicado em 1945, e em alguns ensaios/crônicas de “Confissões de Minas” é possível perceber diversas relações históricas como, por exemplo, as dos acontecimentos no âmbito global e particular, que afetam as duas formas literárias – prosa e poesia, bem como as das utopias comunistas, nos quais se acercavam muitos intelectuais engajados politicamente no período do estado novo. Assim, principalmente em “A rosa do Povo” há uma preocupação coletiva, como se destaca na seguinte inversão sintática: “Tal uma lâ...

Mein blaues Klavier/ Meu piano azul

Else Lasker-Schüler Mein blaues Klavier Ich habe zu Hause ein blaues Klavier Und kenne doch keine Note. Es steht im Dunkel der Kellertür, Seitdem die Welt verrohte. Es spielen Sternenhände vier – Die Mondfrau sang im Boote – Nun tanzen die Ratten im Geklirr. Zerbrochen ist die Klaviatur ... Ich beweine die blaue Tote. Ach liebe Engel öffnet mir – Ich aß vom bitteren Brote – Mir lebend schon die Himmelstür – Auch wider dem Verbote. Fonte: https://gutenberg.spiegel.de/buch/mein-blaues-klavier-8716/2 Meu piano azul Eu tenho em casa um piano azul e não conheço nenhuma nota. Desde que o mundo brutalizou-se Ele está no escuro, à porta do porão. As quatro mãos da estrela o tocam  – A mãe lua canta na canoa – Agora os ratos dançam no tinido O teclado do piano está quebrado... E eu choro os mortos azuis. Ah amado anjo, abra-se a mim – Eu comi do amargo pão – Em mim já existe a porta do céu – também contra a proibição. Tradução instrumental de P...