Pular para o conteúdo principal

Altas horas



Há tantas noites, pairam meus pensamentos
sobre as montanhas ogivais deste lugar e
se adentram espectralmente através das três
faces da cidade: a adormecida, a acesa e a fantasmagórica.

Há tantas noites, eles seguem a imaginar
os corpos esticados enredados na trama dos lençóis.

Há tantas noites, eles abandonam o meu corpo tão desfeito
e fluem em direção a cifra dos segredos...

Além deles... Quantos seres adormecem solitários engolfados
 no próprio desejo de encerramento?

Nas covas da imensa escuridão, quantos corpos se enterram ou
quantas mulheres se debatem à luz de uma nova vida?

Em quantas ruas ou becos se embalam seres transfigurados em
restos de lixo? Seres que seguem como  fantasmas
entregues a eterna convalescença.

Por um lance de minutos, eles pairam novamente... e eu
não quero ir mais contra – que fiquem então ao meu lado,
que me façam ver o espelhamento do dia –  meus pensamentos.

E eles retornam através da descontinuidade e de uma
lógica desfeita ou embaralhada.  De modo latente
e inseguro, eles adentram  à cidade, que expele o seu bafo amargo e úmido.


Mas agora, tudo isso não importa. Enfim...
O dia surge, o sono vem e os pensamentos cessam.


                                                                  Pollyanna Nunes Ramalho Magalhães

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

 No delírio da tarde  Eu vi meu rosto.  Na taça emborcada do dia sorvido  Eu vi meu rosto. O cristal se partiu,  Esgotei meus olhos na noite.  Maria Angela Alvim Livro "Superfície" 1950, em Poemas 

A senhora que ali estava/ conto

Pela manhã, Ina resolveu conhecer um novo lugar, estava cansada. Não os pais, não o marido, não as pessoas compreendiam. Então por uma semana passou em uma nova cidade e, todos os dias de manhã caminhava por algumas ruas, achava aquele lugar de aparência agradável. Já que estava passando muito mal mesmo, e as pessoas não poderiam imaginar – resolveu caminhar. Viu uma senhora sentada num banco e pensou em conversar com ela para ver se o tempo passava e aqueles sentimentos de tristeza e insatisfação passassem junto. A senhora prontamente lhe deu bom dia e disse que esperava por coincidência que alguém sentasse ali e falasse com ela também. Perguntou seu nome e ambas disseram uma à outra seus respectivos nomes. O sol pela manhã como de costume naquele lugar estava ameno. Ina percebeu no modo de ser daquela senhora certa avidez para lhe contar algo sobre ela mesma. Achou que deveria perguntar o que ela queria dizer. A senhora lhe disse: ___ A vida é muito difícil, possui nuances de possibi...
Eu tenho um sonho! Desses que homens vislumbram do alto de uma montanha, desses que passam pelos caminhos e neles permanecem, desses obsessivos que não saem diante dos olhos, desses muito além do corpo. Um sonho estranho... Desses de couraças e diamantes inquebrantáveis, desses que sopram ventos irrespiráveis. Um sonho grisalho de mãos apertadas e olhos plácidos, desses de lobos cinzentos com seus sons vibrantes e melancólicos. Um sonho vazio e repleto, tal como os olhos da loucura.  Desses de punhos cerrados que gritam por liberdade e daqueles que se prostram expondo o dorso retorcido. Sonhos que não só flamejam, mas que ofuscam, aquecem, queimam e ardem os olhos vazios da desesperança – vermelhos. Sonhos que almejam o comum, a normalidade, a iniquidade, por isso tão distantes e estranhos, vivos e sonâmbulos. Desses que anseiam ser mangas colhidas e sorvidas em amor. Eu tenho um sonho, um pequeno grande sonho, um pequeno grande e desespe...