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Nova cara do mundo

O cometa de Halley vai passar Toda a cidade acorda pra ver o cometa Ele é enorme e fabuloso destrói idades pensamentos de homem. O mundo muda a cara quando ele passa e meninas desmaiam no fundo do sertão. O cometa passa e arrasta um pouco da minha alma. Fiquei triste, triste, jururu! Em vão minha tia Virgínia Amália Monteiro de Barros repete no piano com tanto sentimento a valsa Transiberiana, meu xodó naquele tempo. Qual valsa, qual nada! O cometa me traz o anúncio de outros mundos e de noite eu não durmo atrapalhado com o mistério das coisas visíveis. No rabo imenso do cometa passa a luz, passa a poesia, todo o mundo passa! Murilo Mendes
Aforismos Murilo Mendes O difícil não é encontrar a verdade: é organizá-la. Como é simples o mistério da Santíssima Trindade: um só Deus em três pessoas. Que complicação seria se houvesse três deuses! Jesus Cristo não esperou a maturidade para liquidar os sábios e doutores: fê-lo aos 12 anos. O anjo da guarda é proporcional. Jesus Cristo é tão utopista, que coloca o Paraíso no outro mundo; Karl Marx era tão realista, que colocou neste. É difícil ser cristão sem ser antes pagão, e israelita. O sonho é o pensamento em férias.

Jardim Secreto

Olhei através da janela é vi um jardim. Percebi que ele fora feito só para mim. Todos os dias, desde então, após meu café caminhava até lá. Mas, era tão pouco me esconder por apenas algumas horas, que às vezes eu até me perdia nele. Tantas vezes desperta no alvorecer, eu me esquecia de ser. Pode ser que eu apenas me tornava um outro ser integrado, natural. Minhas mãos criavam flores azuis, meus pés uma expansiva relva, todo meu corpo transportado de tempos em tempos. Percebo a existência de muitos jardins como esse e meu único medo é não saber mais viver além dali.

O lobo

Diante de mim, olho e não vejo nada. Tacitamente atravesso o chão forrado de pedregulhos e sinto o aroma gélido da terra. Em noites, canto músicas contínuas... e as luzes me alucinam. Uma pequena presença e meus olhos tornam-se rubros e oblíquos, meus lábios obtusos, minha felpa crispada e meu corpo esquivo e ofensivo. Quando um corpo se coloca diante de mim e me encara, eu o devoro. Mas, diante de uma distração, emudeço.                                                   *Pollyanna Nunes Ramalho 22/12/2014

A máquina do mundo

E como eu palmilhasse vagamente uma estrada de Minas, pedregosa e no fecho da tarde um sino rouco se misturasse ao som de meus sapatos que era pausado e seco; e aves pairassem no céu de chumbo, e suas formas pretas lentamente se fossem diluindo na escuridão maior, vinda dos montes e de meu próprio ser desenganado, a máquina do mundo se entreabriu para quem de a romper já se esquivava e só de o ter pensado se carpia. Abriu-se majestosa e circunspecta, sem emitir um som que fosse impuro nem um clarão maior que o tolerável pelas pupilas gastas na inspeção contínua e dolorosa do deserto e pela mente exausta de mentar toda uma realidade que transcende a própria imagem sua debuxada no rosto do mistério, nos abismos. Abriu-se em calma pura, e convidando quantos sentidos e intuições restavam a quem de os ter usado os já perdera e nem desejaria recobrá-los, se em vão e para sempre repetimos os mesmos sem roteiro tristes périplos, convidando-os a todos, em co...

Tempo e Mundo em Confissões de Minas e a Rosa do Povo

Em 1943, nas palavras de Drummond “o mundo estava submetido a um processo de transformação pelo fogo” (2011: 13) e, nesse processo, como o autor poderia deixar de tratar dos acontecimentos de sua época? Acontecimentos que até hoje deixam cicatrizes – ao que parece – insuperáveis.  Sua consciência, seu modo de enxergar a literatura, certamente, o impediria de fazer o caminho inverso, de se colocar simplesmente, em uma torre de marfim . Em muitos poemas de “A Rosa do Povo”, publicado em 1945, e em alguns ensaios/crônicas de “Confissões de Minas” é possível perceber diversas relações históricas como, por exemplo, as dos acontecimentos no âmbito global e particular, que afetam as duas formas literárias – prosa e poesia, bem como as das utopias comunistas, nos quais se acercavam muitos intelectuais engajados politicamente no período do estado novo. Assim, principalmente em “A rosa do Povo” há uma preocupação coletiva, como se destaca na seguinte inversão sintática: “Tal uma lâ...

Mein blaues Klavier/ Meu piano azul

Else Lasker-Schüler Mein blaues Klavier Ich habe zu Hause ein blaues Klavier Und kenne doch keine Note. Es steht im Dunkel der Kellertür, Seitdem die Welt verrohte. Es spielen Sternenhände vier – Die Mondfrau sang im Boote – Nun tanzen die Ratten im Geklirr. Zerbrochen ist die Klaviatur ... Ich beweine die blaue Tote. Ach liebe Engel öffnet mir – Ich aß vom bitteren Brote – Mir lebend schon die Himmelstür – Auch wider dem Verbote. Fonte: https://gutenberg.spiegel.de/buch/mein-blaues-klavier-8716/2 Meu piano azul Eu tenho em casa um piano azul e não conheço nenhuma nota. Desde que o mundo brutalizou-se Ele está no escuro, à porta do porão. As quatro mãos da estrela o tocam  – A mãe lua canta na canoa – Agora os ratos dançam no tinido O teclado do piano está quebrado... E eu choro os mortos azuis. Ah amado anjo, abra-se a mim – Eu comi do amargo pão – Em mim já existe a porta do céu – também contra a proibição. Tradução instrumental de P...

Was es ist/ O que é isso

O que é isso Isso é o absurdo disse a razão Isso é o que é disse o amor Isso é o azar disse o cálculo Isso não é como a dor disse o medo Isso é o sem esperança disse o conhecimento Isso é o que é disse o amor Isso é o ridículo disse a altivez Isso é imprudente disse o medo Isso é impossível disse a experiência Isso é o que é disse o amor Tradução Pollyanna Nunes Ramalho 15/06/2014 Was es ist Es ist Unsinn sagt die Vernunft Es ist was es ist sagt die Liebe Es ist Unglück sagt die Berechnung Es ist nichts als Schmerz sagt die Angst Es ist aussichtslos sagt die Einsicht Es ist was es ist sagt die Liebe Es ist lächerlich sagt der Stolz Es ist leichtsinnig sagt die Vorsicht Es ist unmöglich sagt die Erfahrung Es ist was es ist sagt die Liebe Erich Fried

Um respiro

Crescem do coração das trevas cinzas e espessas montanhas Partem do negrume dos asfaltos singelas mendigas de chinelo Aparecem deslanchados nos quintais pequeninas cadelas como a Soneca Serafins anestesiam prostitutas pobres  Constantemente Botos semeiam anjos nas ruas Luzes borradas em meio às telas da realidade nua Púrpuras unhas arranham o céu de areia  Saltam dos olhos dos bêbedos sangue e prata Tranças de ferro em meio a comida Cenas se misturam em noites loucas e frias Amalgamados estão sob viadutos um turbilhão de vidas

O Cosmopolitismo em Augusto de Campos e o poeta provençal Arnaut Daniel

A soma da sabedoria humana não está contida em nenhuma linguagem e nenhuma linguagem em particular é CAPAZ de exprimir todas as formas e graus da compreensão humana. Ezra Pound (pág. 38: 1995) É em muito a contribuição de Haroldo e Augusto de Campos para a literatura brasileira, contribuição essa que em grande parte está nas diversas traduções que os irmãos realizaram. E é a partir desse trabalho que a língua portuguesa possui uma visão de diversas obras e de escritores que fazem parte da literatura mundial. A partir do trecho acima, na qual Ezra Pound afirma que nenhuma linguagem é capaz de conter em si toda a sabedoria humana é entendido que o cosmopolitismo é imanente à literatura. Nessa direção, creio que o motivo disso está no fato da necessidade urgente da literatura de dizer e de tentar refletir fatos, sentimentos e reproduzir diferentes culturas. Trato aqui, não de um cosmopolitismo rígido e ideológico, mas sim daquele que se volta para as relações multiculturais, um ...

Álvares de Azevedo, Byron: cosmopolitismo e nacionalismo

Durante o romantismo realizado no Brasil, muitos poetas optavam por uma estética vinculada, aos dramas nacionais e alguns até acreditavam que para se consolidar a literatura brasileira era necessário tratar das paisagens locais. Ainda que Àlvares de Azevedo seja um poeta do período romântico da literatura brasileira, a temática de sua poesia não está vinculada àquela tentativa de desprendimento da literatura européia e de dar forma a uma identidade nacional, algo que aconteceu com os escritores categorizados como de primeira geração.  Ao avaliar o opúsculo de Gonçalves de Magalhaens, no momento em que o autor fala Sobre a História da Literatura no Brasil fica evidente seu caráter de manifesto, ou melhor, o autor dá exemplos literários e históricos destinados a um fim, ou seja, o autor evidencia certo instinto oculto , que pensava ser necessário para a formação de uma literatura nacional. Para Gonçalves de Magalhaens, a paisagem brasileira seria a matéria de poesia necessá...

Na estrada com Jack Kerouac e Walter Salles

A pé e com o coração iluminado, adentro a estrada aberta, Saudável, livre, o mundo adiante de mim,  a longa senda marrom em minha frente, conduzindo-me para onde [quer que eu escolha. A partir de agora não peço mais pela boa sorte, pois eu mesmo sou [a boa sorte, A partir de agora abandono as lamúrias, não mais procratismo, de [nada mais necessito, Estou farto de reclamações entre quatro paredes, bibliotecas, críticas [conflituosas Forte e satisfeito eu viajo pela estrada aberta.(...) Jack Kerouac em 1951, a partir das viagens e situações vivenciadas que duraram aproximadamente sete anos, com seus amigos: Neal Cassady, Allen Ginsberg e Willian S. Burroughs, escreveu em poucas semanas o Romance que seria considerado anos mais tarde a Bíblia da juventude norte-americana. E mais do que isso, um símbolo da geração Beat. No entanto, o sucesso do livro não ocorreu tão rápido, o livro de Kerouac chegou a ser rejeitado por muitas editoras e revisado várias ve...

A eternidade

Achada, é verdade? Quem? A Eternidade. É o mar que se evade Com o sol à tarde. Alma sentinela Murmura teu rogo De noite tão nula E um dia de fogo. A humanos sufrágios, E impulsos comuns Que então te avantajes E voes segundo... Pois que apenas delas, Brasas de cetim, O Dever se exala Sem dizer-se: enfim. Nada de esperança, E nenhum oriétur. Ciência em paciência, Só o suplício é certo. Achada, é verdade? Quem? A Eternidade. É o mar que se evade Com o sol à tarde. Rimbaud (Tradução: Ivo Barroso)

Psicologia de um vencido

Eu, filho do carbono e do amoníaco, Monstro de escuridão e rutilância, Sofro, desde a epigênese da infância, A influência má dos signos do zodíaco. Profundissimamente hipocondríaco, Este ambiente me causa repugnância... Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia Que se escapa da boca de um cardíaco. Já o verme - este operário das ruínas - Que o sangue podre das carnificinas Come, e à vida em geral declara guerra, Anda a espreitar meus olhos para roê-los, E há de deixar-me apenas os cabelos, Na frialdade inorgânica da terra! "Eu" Augusto dos Anjos

Idealização da Humanidade Futura

Rugia nos meus centros cerebrais A multidão dos séculos futuros __ Homens que a herança de ímpetos impuros Tornara etnicamente irracionais! Não sei que livro, em letras garrafais Meus olhos liam! No húmus dos monturos, Realizavam-se os partos mais obscuros, Dentre as genealogias animais! Como quem esmigalha protozoários Meti todos os dedos mercenários Na consciência daquela multidão... E, em vez de achar a luz que os Céus inflama, Somente achei moléculas de lama E a mosca alegre da putrefação! Augusto dos Anjos

Sempre

Jamais se saberá com que meticuloso cuidado Veio o Todo e apagou os vestígios de Tudo E Quando nem mais suspiros havia Ele surgiu de um salto Vendendo súbitos espanadores de todas as cores! Mario Quintana ( O aprendiz de feiticeiro)

O dia

O dia de lábios escorrendo luz O dia está na metade da laranja O dia sentado nu Nem sente os pesados besouros Nem repara que espécie de ser... ou deus... ou animal                           [é esse que passa no frêmito da hora Espiando o brotar dos seios. Mario Quintana (O aprendiz de feiticeiro)

Lua perdida

Lua perdida nos muitos cantos do mundo assombrando os sonhos. Às vezes adormecida no rastro vermelho do sol. Junto  com a trama secreta do destino acorda seu nome acorda também seus pássaros e à noite seus mistérios. Pollyanna Nunes Ramalho 2008
Escritores da Liberdade (Freedom Writers, EUA 2007) é um daqueles filmes que bem representa a realidade contemporânea das escolas e das relações entre professores e alunos. A partir disso, pretendo relacionar o filme com algumas assertivas de Inês Assunção de Castro no artigo Da Condição Docente: Primeiras Aproximações Teóricas. O filme conta a história de uma professora recém-formada, Erin Gruwell (Hilary Swank), que tem o interesse de lecionar Língua Inglesa, mas que não imaginava os desafios que estavam por vir. O enredo, inicialmente, apresenta desde questões burocráticas que fazem parte da vida dos professores, como exemplo a admissão e os primeiros contatos com a diretoria da escola até as relações com os alunos. Também, é interessante observar as diferenças sociais entre os professores e alunos. Se Erin, formada em Direito, como outros docentes e membros da diretoria da escola, tiveram acesso a uma educação que lhes deram uma formação e uma profissão, os alunos, neste c...