Pular para o conteúdo principal

As cidades e a memória 3


Inutilmente, magnânimo Kublai, tentarei descrever a cidade de Zaíra dos altos bastiões. Poderia falar de quantos degraus são feitas as ruas em forma de escada, da circunferência dos arcos dos pórticos, de quais laminas de zinco são recobertos os tetos; mas sei que seria o mesmo que não dizer nada. A cidade não é feita disso, mas das relações entre as medidas de seu espaço e os acontecimentos do passado: a distância do solo até um lampião e os pés pendentes de um usurpador enforcado; o fio esticado do lampião à balaustrada em frente e os festões que empavesavam o percurso do cortejo nupcial da rainha; a altura daquela balaustrada e o salto do adúltero que foge de madrugada; a inclinação de um canal que escoa água das chuvas e o passo majestoso de um gato que se introduz numa janela; a linha de tiro da canhoneira que surge inesperadamente  atrás do cabo e a bomba que destrói o canal; os rasgos nas redes de pescae os três velhos remendando as redes que, sentados no molhe, contam pela milésima vez a história da canhoneira do usurpador, que dizem ser o filho ilegítimo da rainha, abandonado de cueiro ali sobre molhe.

 A cidade se embebe como uma esponja dessa onda que reflui das recordações e se dilata. Uma descrição de Zaíra como é atualmente deveria conter todo o passado de Zaíra. Mas a cidade não conta o seu passado, ela contém como as linhas da mão, escrito nos ângulos das ruas, nas grades das janelas, nos corrimãos das escadas, nas antenas dos pára-raios, nos mastros das bandeiras, cada segmento riscado por arranhões, serradelas, entalhes, esfoladuras. 


Italo Calvino( As cidades Invisíveis – Tradução Diogo Mainardi)

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

 No delírio da tarde  Eu vi meu rosto.  Na taça emborcada do dia sorvido  Eu vi meu rosto. O cristal se partiu,  Esgotei meus olhos na noite.  Maria Angela Alvim Livro "Superfície" 1950, em Poemas 

A senhora que ali estava/ conto

Pela manhã, Ina resolveu conhecer um novo lugar, estava cansada. Não os pais, não o marido, não as pessoas compreendiam. Então por uma semana passou em uma nova cidade e, todos os dias de manhã caminhava por algumas ruas, achava aquele lugar de aparência agradável. Já que estava passando muito mal mesmo, e as pessoas não poderiam imaginar – resolveu caminhar. Viu uma senhora sentada num banco e pensou em conversar com ela para ver se o tempo passava e aqueles sentimentos de tristeza e insatisfação passassem junto. A senhora prontamente lhe deu bom dia e disse que esperava por coincidência que alguém sentasse ali e falasse com ela também. Perguntou seu nome e ambas disseram uma à outra seus respectivos nomes. O sol pela manhã como de costume naquele lugar estava ameno. Ina percebeu no modo de ser daquela senhora certa avidez para lhe contar algo sobre ela mesma. Achou que deveria perguntar o que ela queria dizer. A senhora lhe disse: ___ A vida é muito difícil, possui nuances de possibi...
Eu tenho um sonho! Desses que homens vislumbram do alto de uma montanha, desses que passam pelos caminhos e neles permanecem, desses obsessivos que não saem diante dos olhos, desses muito além do corpo. Um sonho estranho... Desses de couraças e diamantes inquebrantáveis, desses que sopram ventos irrespiráveis. Um sonho grisalho de mãos apertadas e olhos plácidos, desses de lobos cinzentos com seus sons vibrantes e melancólicos. Um sonho vazio e repleto, tal como os olhos da loucura.  Desses de punhos cerrados que gritam por liberdade e daqueles que se prostram expondo o dorso retorcido. Sonhos que não só flamejam, mas que ofuscam, aquecem, queimam e ardem os olhos vazios da desesperança – vermelhos. Sonhos que almejam o comum, a normalidade, a iniquidade, por isso tão distantes e estranhos, vivos e sonâmbulos. Desses que anseiam ser mangas colhidas e sorvidas em amor. Eu tenho um sonho, um pequeno grande sonho, um pequeno grande e desespe...